Os desafios de criar ambientes para restaurantes, na visão das arquitetas Melissa Ferraz e Lizandra Maluf

Redação: Fala-se muito hoje em viver a “experiência” quando se decide fazer um programa de comer fora em restaurante.  Para preencher essa expectativa a criação de um ambiente que marque a memória do consumidor é fundamental ?

Melissa Ferraz e Lizandra Maluf: Sim é fundamental. Pois, se o ambiente não traduzir o que a comida deste restaurante quer transmitir, a experiência não fica completa. Isto também depende do tipo de restaurante, quanto tempo o cliente vai passar nele, etc. Mas essa tendência de viver a “experiência” é algo que vem crescendo em todos os setores, não somente na alimentação. È uma mudança de comportamento que vem junto com essa nova geração.

Redação: O que pode ser usado para atiçar essa memória e experiência para o cliente ? Preenchimento das paredes, móveis, o que pode ser estímulo a quem vai ali consumir ?

Melissa Ferraz e Lizandra Maluf:  Tudo isso contribui muito. Desde o desenho dos móveis, as texturas dos tecidos, as cores principalmente, podem influenciar de forma positiva ou negativa para quem vai comer naquele local. Determinadas cores, como lilás, podem causar relaxamento,  mas podem também causar sono, desânimo, o que não funciona por exemplo para um ambiente de fast food. Por isso o vermelho, amarelo e laranja são tão usados neste tipo de negócio.

Redação:  Percebe-se um resgate do clássico e do antigo, com bares que remontam a décadas passadas, restaurantes que desejam ser templos de certos menus. A arquitetura e o ambiente devem celebrar o perfil da comida preferencial da casa ?

Melissa Ferraz e Lizandra Maluf:  Acho que devem traduzir isso. Se será de forma caricata, cenográfica ou mais sutil , cada estabelecimento irá definir isso de acordo com o público que quer atingir. Por exemplo,  quando quer se atingir um público mais moderno e cool, talvez algo muito caricato não vai funcionar.

Mas  existe sim uma tendência do resgate ao clássico, vintage etc, pois transmite uma idéia do fazer artesanal, do produtor local, que é uma tendência de comportamento mundial vinda para contrabalancear esse mundo high tech e solitário em que vivemos. Porém, em nossa opinião, acima de tudo isso, o projeto do ambiente deve traduzir o conceito do negócio. Tudo deve falar a mesma língua. Não adianta vender algo super industrializado num ambiente super vintage ou artesanal. O negócio como um todo deve contar uma história verdadeira, desde a comida servida, o tipo de atendimento, ao projeto de arquitetura e interiores e até mesmo como se comunica com seus clientes.

Redação:  Nesse aspecto os restaurantes, bares e cervejarias aproximam-se do teatro e cinema,oferecendo verdadeiros cenários ao consumidor. Mas isso não torna o modelo mais passageiro ou é chance de virar ícone na cidade e virem pessoas de longe e de outros municípios ?

Melissa Ferraz e Lizandra Maluf: Pode se tornar sim muito passageiro, pois isso deve-se saber dosar isso tudo. Seguir tendências de comportamento pode servir para estruturar um negócio, olhar o futuro, porém quando se fala de uma cozinha autoral por exemplo, que tem a assinatura de alguém, este ambiente deve traduzir o conceito da cozinha apresentada. Tudo depende do tipo de negócio, mas acreditamos que quanto mais o ambiente traduzir verdadeiramente o conceito do negócio, daí sim vai funcionar.

Redação:  E como é decidida essa inspiração ?  Vem do empreendedor ?  Vem do local e da história da cidade ? Como fazer esse processo criativo ?

Melissa Ferraz e Lizandra Maluf: O processo criativo funciona em conjunto. Tem situações que o conceito do negócio está tão definido que por si só já vai nos dar diretrizes para seguir.

Em outros casos, através de nossa conversa com o empreendedor e pesquisas, vamos amarrando os pontos e chegando a um conceito que traduza isso tudo. Inspiração é pesquisa, ou seja, parte-se de um conceito inicial que vai levando a outros até chegar nesta colcha de retalhos bem organizada, onde tudo se conversa.

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